O Missionário e a Igreja: maturidade (vídeo do Ministério Fiel)

Um ótimo bate papo sobre maturidade missionária com o pessoal do Ministério Fiel. Destaco na conversa, de um pouco mais de 10 minutos,  a importância da igreja e do envolvimento do missionário com a igreja para se formar e confirmar a maturidade do obreiro de missões.

Missões acontece na igreja do começo ao fim. Vale a pena assistir.

Clique aqui caso não veja o vídeo acima.

Ricco

O que vai acontecer com aqueles que nunca ouviram o Evangelho?

Vamos começar imaginando dois cenários. O cenário ideal e o cenário geral. O cenário ideal é onde o homem ouve a respeito do Evangelho pelo menos uma vez na vida, se ele vai seguir ou não Cristo é outra história. Mas no cenário ideal ele ouviu sobre Cristo. O cenário geral é onde uma pessoa nasce e morre sem nunca ter ouvido de Cristo. É possível isso acontecer? Sim. Isso ocorre com povos isolados, em contexto indígena, nômade ou tribal. E também entre povos que vivem em países e regiões fechadas, como a cidade de Meca na Arábia Saudita ou o país Coréia do Norte, nestes lugares é proibido ser cristão ou pregar a Palavra.

Saber o que pode ocorrer com quem nunca ouviu o Evangelho é uma questão importante para a fé cristã, não apenas para matar a nossa curiosidade, pois envolve pelo menos outros dois assuntos: (1) o ataque as doutrinas bíblicas da salvação e (2) a vocação e responsabilidade missionária de todo cristão.

As doutrinas bíblicas são atacadas por que vão surgir dúvidas quanto a questões centrais de nossa fé. Quando penso em alguém que nasce e morre sem nunca ter ouvido de Cristo, surgem perguntas:

>A Bíblia é necessária para revelar a Deus? Ou a natureza é suficiente?
>Deus é justo? E se ele enviar ao inferno alguém que nunca teve oportunidade de ouvir de Cristo?
>A obra de Cristo e a cruz são o único caminho ao céu? Ou seja, existe uma exceção? A bondade (ou maldade) de alguém podem ser base para Deus julgá-los, já que, neste caso, nunca ouviram de Cristo.
>A igreja e o discipulado têm papel importante no reino de Deus? Ou não são desnecessários e substituíveis?

Ao responder sobre os que nunca ouviram do Evangelho, podemos derrapar em alguma questão bíblica importante. E ainda temos uma outra pergunta:

>O esforço missionário para alcançar os povos que nunca ouviram é necessário?

A vocação e responsabilidade missionária está em risco se, de algum modo, dermos uma alternativa viável ao anúncio da salvação a todos os povos. Alguém pode questionar a necessidade de qualquer esforço missionário aos povos fechados e/ou isolados que nunca ouviram a Palavra.

É muito importante frisar que não há salvação fora de Cristo. Isso é indiscutível. Ninguém vai ao céu sem Cristo. Pois o próprio Deus estabeleceu Jesus como o único mediador entre Deus e os homens.

“Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” Atos 4:12

Ao ler este versículo devemos nos remeter imediatamente para o desafio missionário de anunciar o Evangelho e empreender todos os esforços necessários, especialmente dinheiro e pessoas, para que se cumpra o mandato de pregar a Palavra em todo mundo habitado, para todos os povos.

Mas e os que vão nascer e morrer sem nunca terem ouvido o Evangelho? Infelizmente isso ainda acontece, e aí recorremos ao cenário geral. Pois todos os homens têm a sua disposição alguma revelação sobre Deus. Esta revelação geral de Deus é suficiente para condenar o homem ao inferno. Na carta aos Romanos Paulo explica:

“Portanto, a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. ” Romanos 1:18-21

Esta passagem mostra que “o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles” e “têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis”. Ou seja, através da criação o homem deve, de alguma maneira, compreender o Criador. E não só compreendê-lo, mas reconhece-lo como Criador, glorificar o Seu nome. Nesta passagem Paulo mostra que os homens “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças”.

Em Atos 17, discursando em Atenas para pessoas que nunca tinham ouvido o Evangelho, Paulo diz:

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração.” Atos 17.24-28

Agora Paulo mostra que Deus criou tudo que existe (visível ou invisível aos olhos humanos), e criou o homem com um propósito: “para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar”. Ele mostra como Deus criou toda humanidade para que homens e mulheres O busquem. E vai além falando que Deus “não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração”. Ou melhor, nossa consciência tem algo de Deus, pois fomos gerados por Deus, somos sua descendência. Nossa experiência na terra, que mescla como lidamos com o mundo exterior (coisas criadas visíveis) e nosso mundo interior (consciência humana), deve nos conectar a Deus.

No cenário ideal as pessoas ouvem sobre Jesus e sua obra e decidem se querem segui-lo ou não. São ensinadas nas coisas de Deus, são discipuladas, frequentam uma igreja ou grupo cristão. No cenário geral não existe o anúncio verbal sobre Cristo, mas existe revelação sobre Deus.

Mas não é possível ir para o céu sem Cristo. E o quanto este cenário geral aponta para Cristo não temos como saber exatamente. Em Romanos e Atos nós vemos que Deus não ficou sem testemunho, ainda que não seja verbal, as coisas criadas e a nossa consciência “falam” de Deus para nós. O cenário geral é a provisão do próprio Deus para que Ele não ficasse sem testemunho, e o homem não tivesse nenhuma desculpa do porque não reconheceu e glorificou a Deus. Mas não sabemos qual a capacidade desta revelação geral apontar para Cristo. E sem Cristo é impossível entrar no céu.

Uma pergunta importante: Deus é justo? Ele pode enviar ao inferno alguém que nunca teve oportunidade de ouvir de Cristo? Sim, Deus é justo, sempre foi e sempre será por toda eternidade. Ele estabeleceu Cristo como o único e suficiente Salvador, Senhor e mediador entre Deus e os homens. A justiça de Deus não pode ser questionada. E um dos motivos pelo qual não podemos questioná-Lo é exatamente o cenário geral que Ele mesmo proveu e torna o homem indesculpável (Rm 1.18-20).

A criação revela Deus. A criação dá testemunho de Deus. A experiência de nascer no mundo já é suficiente para conhecer a Deus, compreender a Deus e glorificar a Deus. Em Romanos 1.20 mostra que as coisas invisíveis se tornam claras e compreensíveis por meio das coisas criadas, por meio das coisas visíveis.

Porém tudo isso é o cenário geral. Onde a pessoa terá alguma informação sobre Deus através da criação e de sua própra consciência humana, consciência de existir, viver e crescer na terra. Mas ainda não é o cenário ideal onde ouviu verbalmente de Cristo.

Porém, glorificar a Deus ao observar as coisas criadas é bem diferente de seguir a Cristo, ser discipulado, ter esclarecimento sobre vida, morte e ressurreição de Jesus, escolher seguir a Cristo, participar de uma igreja. O cenário geral, apesar de não ser ideal, revela algo sobre Deus. Quem nunca ouviu de Cristo tem a seu dispor uma revelação feita pelo próprio Deus, Ele quis se revelar pela criação (Romanos 1.19). O grande perigo é confundirmos o cenário ideal com o geral. E achar que o geral pode ser ideal.

A resposta à pergunta que é o título deste estudo deve considerar estes dois cenários, estas duas realidades. O que vai acontecer com aqueles que nunca ouviram o Evangelho? Não sabemos se irão ou não ao céu. O que sabemos é:

  • Não há salvação fora de Cristo
  • Deus nunca fica sem testemunho de si mesmo
  • Deus escolheu os cristãos para dar testemunho verbal d’Ele para todos os povos

E quem nunca vai ouvir de Cristo? O que será destes? Vai depender da maneira que ele responder a revelação geral e não verbal, que se observa na natureza e na própria consciência do homem (Atos 17.28). Mas seja qual for a resposta do homem, ele só será salvo por Cristo. Mas como ele pode saber de Cristo, se ninguém contar. Aí está a pergunta que deve nos mover em missões: Alguém tem que contar! Ainda em Romanos, Paulo ensina e desafia a igreja:

“Porque “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: “Como são belos os pés dos que anunciam boas novas!” Romanos 10:13-15

O Senhor que ele diz que deve invocar para ser salvo é Jesus. Mas Paulo mostra que para invocar o Senhor, precisamos de um cenário ideal, onde existe uma sequência de acontecimentos que começam com o envio do missionário, para que depois pregue e alguém escute, para então poder crer e invocar.

Mas e fora deste cenário ideal. No cenário geral, é possível ser salvo sem nunca ter ouvido do Evangelho? Sim, desde que seja salvo por Cristo. Desde que através da revelação geral e de sua consciência o homem creia e invoque a Cristo como Senhor.

É possível ser salvo fora de Cristo? Não.

Deus é bom, justo e misericordioso. Pois mesmo desejando o cenário ideal, ele deixou um cenário geral para que ninguém tenha desculpa de não ter tido oportunidade de conhecê-Lo. A igreja, o discipulado, o ensino verbal, tudo isso são mandamentos e coisas importantes para compor o cenário ideal. Mas Deus não ficará sem testemunho a seu próprio respeito caso nenhum missionário chegue para anuncia-Lo. Para ir ao céu, temos que estar em Cristo. E para estar em Cristo, temos que responder de maneira adequada a revelação que temos ao nosso dispor, seja a revelação verbal ou não verbal.

Ricardo Silva
Abril de 2015

Onde você trabalha para o reino?

Mas, agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões e desejando há muito visitar-vos, penso em fazê-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia. Rm 15.23-24

Por que Paulo disse que não tinha mais atividade nas regiões onde estava e pediu ajuda da igreja de Roma para ir até a Espanha? Cidades como Éfeso, Galácia, Colossos e até Roma ou Jerusalém, já estavam totalmente alcançadas, todos tinha se convertidos? Aqui a palavra atividade pode ser traduzida também por oportunidade, ou melhor, todas oportunidades de anunciar o Evangelho já tinham se encerrado por ali?

Não, claro que não. Pois nem todos naquelas regiões tinham se convertido e ainda tinha muito trabalho e muita gente pra ser ganha para Jesus. Mas Paulo diz “não tendo já campo de atividade nestas regiões” por pelo menos três motivos:

Ele entendia que cada parte do corpo tem sua função
Paulo sabia que cada membro da igreja tinha sua função, a dele era abrir novas frentes de trabalho e plantar igrejas, enquanto a função de outros era atuar nestas igrejas já plantadas. E não existia um sentimento de competição por qual trabalho ou qual necessidade atendida era mais importante ou melhor. Ele mesmo ensinou que um planta, outro rega, e Deus dá o crescimento (1 Co 3.6). E assim ele acreditava na igreja local para alcançar as cidades.

Ele acreditava no potencial da igreja local para alcançar os locais
Paulo acreditava na igreja e nas pessoas que tinha se convertido e iniciado uma comunidade cristã. Ele não tinha medo de delegar e nem tinha o sentimento de ser insubstituível. Paulo sabia que as igrejas já estabelecidas tinham muitos desafios ainda, é só ler suas cartas para ver como ele conhecia e trabalhava pelos problemas da igreja. Mas ele não parava nos problemas, apesar de estar a distância e tentar resolvê-los, ele sabia que a Palavra tinha que se expandir para outras regiões.

O Evangelho precisa avançar para regiões não alcançadas
Paulo entendia muito bem seu chamado: os gentios. E para cumprir o chamado ele tinha que viajar muito. O chamado de Paulo não era para uma região geográfica, uma cidade ou país, mas para um grupo de povo. Tudo bem que fora os judeus, todos eram gentios. Mas é interessante ver como Paulo não mediu esforços para levar o Evangelho aos que ainda não ouviram, e plantar uma igreja onde ainda não existia uma comunidade cristã.

Algumas aplicações

A igreja nunca pode perder a visão de avançar aos não alcançados, os de longe. Nem todos vão até lá, mas todos devem estar envolvidos de alguma maneira, orando, doando, divulgando, enviando e mantendo. Paulo esperava que a igreja de Roma o enviasse a Espanha.

A igreja deve ter projetos para alcançar os de perto, sejam do bairro, sejam grupos específicos como universitários, moradores de rua, empresários. Temos que entender que alcançar não pe apenas levar as pessoas a fazer uma confissão, mas discipular, ensinar, acompanhar, pastorear.

Pensando nos dois pontos acima, é besteira ficar comparando onde a obra de Deus tem mais importância. Os de perto ou de longe, a classe média ou os moradores de rua, os jovens ou as crianças, quem já está na igreja ou quem ainda não está, todos precisam ouvir a Palavra e tem a mesma importância. Alguns tem menos oportunidades (mas este é um assunto para outro post), mas todos tem a mesma importância.

Os líderes devem acreditar e dar oportunidades aos novos obreiros (não digo novos convertidos). Paulo plantava a igreja, ficava um tempo discipulando eles de perto e depois ia embora. Ela dava oportunidade para seus discípulos trabalhar e deixava eles acertarem, errarem, mas acreditava neles.

Que em nós exista este sentimento de corpo, de unidade, e nunca percamos a visão de nos envolvermos no evangelismo e discipulado, sejam os de perto ou os de longe!

Ricco