A criança que não queria voltar pra casa, ela mora no presídio!

Desde que chegamos á Bolívia em Janeiro temos trabalhado com as crianças que  moram no presídio. Nunca imaginamos esta situação e oportunidade de trabalho*, Deus conduziu tudo e estamos quebrando a cabeça para fazer o melhor.

Aqui em Puerto Suarez na Bolívia, ficam todos juntos no presídio: homens, mulheres e crianças. Tem de bebê a crianças de 12 anos, e ficam junto com os pais que estão, na maioria dos casos, presos por narcotráfico. Hoje temos um trabalho com dois grupos de crianças que ali estão. Os menores nós levamos a creche e somos responsáveis por tudo, uniforme, transporte, material escolar, documentação, tirar e devolver do presídio. Os maiores são três irmãos, de 9 a 12 anos. Eles vão à escola pela manhã e voltam para casa, no presídio, para almoçar. À tarde, de Quarta a Sexta, nós pegamos eles e trazemos para a base missionária onde tem estudo bíblico, aconselhamento e a escola de futebol, e de Sábado de manhã também tiramos eles do presídio para jogar bola.

Ainda estamos tentando entender toda a situação das crianças nas cadeias da Bolívia, ouvi que em Santa Cruz existem 1200 crianças presas com suas mães! Aqui em Puerto Suarez estamos fazendo a diferença na vida destas crianças reduzindo o tempo e o impacto de viver no presídio, pois ali é a sua casa.

Esta semana ocorreram duas situações bem parecidas, e quero dividir um pouco desta experiência. Há alguns dias atrás quando voltamos da creche, a Maria*, uma das pequenas, sentou na frente do portão de entrada do pátio e ficou olhando para dentro, onde estão as celas. A sua mãe, que esta presa, estava do outro lado da grade e o portão estava aberto. O guarda olhou para a Maria e acenou com a cabeça como quem quer dizer “vamos, entre”. A mãe da Maria pegou sua mão através da grade e disse “venha filha”. E a Maria continuou ali parada, olhando em direção as celas, mas ao mesmo tempo olhando para o nada, sem dizer uma palavra. Neste momento eu perguntei a ela: você não quer entrar? E sua resposta não veio em palavras, ela apenas balançou a cabeça pra direita e esquerda sinalizando que não queria voltar para casa. Sua mãe passou a mão pelo portão aberto, pegou em seu braço e a puxou para dentro.

Hoje, voltando com os garotos do futebol, eu disse para o Paulo* que amanhã os pegaria as duas da tarde para o estudo bíblico na base missionária. Ele me perguntou quando eu os levaria de volta ao cárcere, e eu disse que mais ou menos umas cinco horas da tarde. Ele me olhou, abriu um sorriso e perguntou todo animado: não pode ser as seis ou as sete? Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu me contive e disse que teria que ser as cinco mesmo.

Estas crianças não devem estar na cadeia, ainda que a lei boliviana permita que crianças de até seis anos fiquem com as mães presas, não existem condições adequadas para uma infância saudável dentro dos presídios bolivianos. Nós temos muito trabalho pela frente e eu quero te desafiar a abraçar esta causa junto conosco. Hoje, o que temos na mão é uma base missionária e um projeto que retira por tempo parcial estas crianças do presídio, queremos avançar e construir o orfanato. Vamos mobilizar a sociedade boliviana, o governo, as famílias dos presos e fazer tudo que for possível para mudar esta situação na Bolívia. Sonhamos alto, planejamos o que queremos, mas vamos fazendo o que podemos agora e não desprezamos este pequeno começo!

Junte-se a nós no Proyecto Esperanza
No dia 12 de Outubro é o Dia da Criança no Brasil, as crianças serão lembradas em todo lugar pelo país. Eu quero te desafiar a lembrar das crianças presas aqui na Bolívia. Vou preparar material para uma apresentação do projeto para você usar em uma reunião de oração e mobilização. Estamos chamando de Proyecto Esperanza (Projeto Esperança em espanhol), você deve separar um dia do mês de Outubro, por uma hora ou menos, e organizar um encontro para falar sobre estas crianças, pode ser um chá em sua casa, uma pizzada no restaurante da esquina, um tempo no culto de sua igreja, ou outro momento.

A ideia é que você mostre algumas fotos (que não podem ser divulgadas na internet), compartilhe as histórias, os pedidos de oração, e desafie cada pessoa a continuar orando e mobilizando mais pessoas pelo Proyecto Esperanza. Eu não sabia desta situação das crianças no presídio até chegar aqui na Bolívia, espalharmos a informação é o primeiro passo, temos que contar pra todo mundo sobre estas crianças que não querem voltar para casa, pois moram no presídio. Depois de mostrar a causa temos que chamar as pessoas para fazer algo, neste momento quero oração e ideias.

Em breve vou postar mais detalhes do que vamos chamar de Dia da Esperança. Se você se interessa em fazer parte disto clique aqui e deixe seu nome e e-mail e entramos em contato.

Graças aos meus amigos espalhados pelo mundo, vamos preparar material em inglês, espanhol, francês e alemão. Se você está em algum outro país, que não o Brasil, e quer traduzir o material para outro idioma não citado acima, clique aqui e mande seu nome e e-mail. Quero ver o Dia da Esperança acontecendo em vários cantos do Brasil e do Mundo!

Participe:

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Ricco

*Notas:
[1] Clique aqui e veja como começou nosso envolvimento com este projeto de crianças no presídio.
[2] Maria e Paulo são nomes fictícios de crianças reais e histórias verdadeiras.

Pastoral Carcerária no trabalho missionário aqui na Bolívia

Eu gosto muito de tudo que tenho a oportunidade de fazer aqui na Bolívia, mas confesso que o trabalho no presídio é o meu predileto. Talvez pelo contexto que me identifico, que é bem parecido com o contexto de onde sai quando me converti, talvez por ver uma transformação tão grande em pessoas que um dia foram realmente do “mal”. Seja o motivo que for, o trabalho missionário no presídio é algo que me anima e me faz investir horas em preparo de mensagem e atenção com os presos.

O vídeo abaixo é um pouco do que tem rolado desde que começamos em Janeiro até agora em Julho de 2012, quando encerramos uma primeira fase com três batismos. O trabalho continua normal, mas agora partimos para um discipulado mais próximo e um estudo bíblico mais profundo com os três irmãos que se batizaram. Em breve eles estarão pregando, aconselhando e sendo líderes cristãos ali dentro. E quando saírem continua com o compromisso deste ministério no cárcere, ninguém melhor que um ex-detento para falar do amor de Deus, de esperança, perdão e arrependimento para alguém encarcerado.

No mês de Julho de 2012 tivemos o apoio de alguns irmãos brasileiros. Agradecimento especial ao Samuel e Dojão, estagiários do Seminário Bíblico Palavra da Vida, pelo tempo que dedicaram as pregações, ao discipulado e a atenção com os presos agora em Julho de 2012. Espero que eles e outros seminaristas venham dedicar suas férias conosco aqui!


caso não veja o vídeo acima clique aqui

Veja mais fotos abaixo:

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Porque Escola de Futebol e Pastoral Carcerária?

Aqui na Bolívia atuamos em duas frentes de trabalho para alcançar as vidas: Escola de Futebol e Pastoral Carcerária. Temos ainda o orfanato que esta em fase de planejamento e ligado a Pastoral Carcerária.

Como e porque começamos estes dois projetos?
Quando chegamos à Bolívia eu já vim com a ideia de começar uma Escola de Futebol como já fazia no Brasil, em São Paulo, Vila Madalena, o Morrão Futebol Clube. O Morrão FC é um projeto de esporte e estudo bíblico e já acontece desde 2004 em SP. Como eu tenho experiência nesta área e sei que o futebol é uma poderosa ferramenta para alcançar as crianças, jovens e também chegar a seus familiares, já vim para cá com este projeto na mala.

Começamos o futebol com a criançada do bairro usando uma praça ao lado de casa, rapidamente chegamos a 30 garotos. Eu fui buscar apoio a Defensoria de La Niñez (DLN), que é como o Conselho Tutelar no Brasil. Chegando lá conversei sobre o projeto de futebol com a Leslie, psicóloga e coordenadora da DLN, e como podíamos ter uma parceria, já que a escola de futebol ajuda a garantir os direitos da infância. Consegui o ginásio da cidade para dar os treinos!

Antes de encerrar a conversa eu perguntei se existia algo mais que poderíamos fazer pelas crianças de Puerto Suarez e quais eram as áreas mais carentes relacionado a garantia dos direitos da infância aqui em Puerto Suarez Bolívia. A Leslie me apresentou uma situação terrível, que eu nunca esperava ouvir e nunca imaginei que existisse. No presídio de Puerto Suarez algumas crianças ficam presas junto com seu pai ou mãe, e mais, no presídio ficam todos juntos: homens, mulheres e crianças.

O que acontece é que algumas pessoas que vão presas não têm parentes fora da cadeia que possa ficar com seus filhos. Ou o familiar mora longe ou é muito pobre e não tem condições de criar um ou mais filhos, que gera despesas, cuidados e atenção. Com isso, a criança vai para a cadeia junto com a mãe ou o pai, e vive com outros presos a rotina e dia-a-dia de um presídio, que por si só já tem condições horríveis até para os adultos, imagina para as crianças que tem entre 2 e 9 anos. A maioria das crianças vai presa junto com a mãe, mas já pegamos um caso de uma menina estar presa com o pai.

Conversando com a Leslie, da DLN, fizemos um projeto em duas fases. A primeira fase começou imediatamente no outro dia, retiramos as crianças do presídio das 8h as 16h e as levamos para uma creche, demos uniforme, material e o transporte diário de ida e volta. Mas elas ainda dormem no presídio e passam lá o fim de semana inteiro. A segunda fase do projeto é iniciar um orfanato, onde estas crianças ficariam em definitivo enquanto sua mãe ou pai estão presos. E o orfanato atenderia outras situações com crianças em maus tratos, órfãos, abandono ou extrema pobreza. Aqui na região ainda não existe nenhum orfanato. E o acordo é que nenhuma criança vá mais ao presídio, quando alguém for preso e não tiver com quem deixar os filhos, as crianças serão direcionados ao orfanato e ficarão lá até a soltura do seu pai ou mãe, ou até que um familiar queira cuidar provisoriamente, e claro, apresente condições para isso.

Depois que começamos a ir ao presídio para atender as crianças, conversei com alguns presos e policiais e iniciamos um culto uma vez por semana para os adultos. Eles não tinham nenhum tipo de assistência espiritual. Hoje, além do culto, já temos um discipulado, aconselhamento e estamos preparando um curso de escola bíblica e nosso primeiro batismo.

“Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do SENHOR permanecerá.” Provérbios 19:21

A Escola de Futebol e a Pastoral Carcerária são nossas atividades de evangelismo. Começamos a fazer reuniões na Base Missionária e cremos que as vidas alcançadas virão ouvir a Palavra e congregar aqui na base e assim estamos iniciando uma pequena congregação, plantando uma igreja.

Agora você já sabe como e porque estamos envolvidos nestes dois projetos. A Escola de Futebol eu já tinha em mente ao vir a Bolívia, a Pastoral Carcerária eu não fazia a menor ideia que ia rolar, muito menos a questão do orfanato. Creio que Deus esta conduzindo tudo e fazendo a vontade d’Ele. Algo muito legal é que estes são trabalhos inéditos para estes públicos aqui na cidade de Puerto Suarez. Os meninos da Escola de Futebol não participavam de nada na área esportiva fora do período do colégio. E no presídio nenhum missionário ou pastor fazia culto ou dava atenção à questão das crianças e dos presos.

Ore pela Escola de Futebol e pela Pastoral Carcerária! Ore também pelo Orfanato: uma propriedade adequada para alugar e um casal de missionários para se juntar a nós na equipe.

Veja mais fotos abaixo:
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Ricco