O que vai acontecer com aqueles que nunca ouviram o Evangelho?

Vamos começar imaginando dois cenários. O cenário ideal e o cenário geral. O cenário ideal é onde o homem ouve a respeito do Evangelho pelo menos uma vez na vida, se ele vai seguir ou não Cristo é outra história. Mas no cenário ideal ele ouviu sobre Cristo. O cenário geral é onde uma pessoa nasce e morre sem nunca ter ouvido de Cristo. É possível isso acontecer? Sim. Isso ocorre com povos isolados, em contexto indígena, nômade ou tribal. E também entre povos que vivem em países e regiões fechadas, como a cidade de Meca na Arábia Saudita ou o país Coréia do Norte, nestes lugares é proibido ser cristão ou pregar a Palavra.

Saber o que pode ocorrer com quem nunca ouviu o Evangelho é uma questão importante para a fé cristã, não apenas para matar a nossa curiosidade, pois envolve pelo menos outros dois assuntos: (1) o ataque as doutrinas bíblicas da salvação e (2) a vocação e responsabilidade missionária de todo cristão.

As doutrinas bíblicas são atacadas por que vão surgir dúvidas quanto a questões centrais de nossa fé. Quando penso em alguém que nasce e morre sem nunca ter ouvido de Cristo, surgem perguntas:

>A Bíblia é necessária para revelar a Deus? Ou a natureza é suficiente?
>Deus é justo? E se ele enviar ao inferno alguém que nunca teve oportunidade de ouvir de Cristo?
>A obra de Cristo e a cruz são o único caminho ao céu? Ou seja, existe uma exceção? A bondade (ou maldade) de alguém podem ser base para Deus julgá-los, já que, neste caso, nunca ouviram de Cristo.
>A igreja e o discipulado têm papel importante no reino de Deus? Ou não são desnecessários e substituíveis?

Ao responder sobre os que nunca ouviram do Evangelho, podemos derrapar em alguma questão bíblica importante. E ainda temos uma outra pergunta:

>O esforço missionário para alcançar os povos que nunca ouviram é necessário?

A vocação e responsabilidade missionária está em risco se, de algum modo, dermos uma alternativa viável ao anúncio da salvação a todos os povos. Alguém pode questionar a necessidade de qualquer esforço missionário aos povos fechados e/ou isolados que nunca ouviram a Palavra.

É muito importante frisar que não há salvação fora de Cristo. Isso é indiscutível. Ninguém vai ao céu sem Cristo. Pois o próprio Deus estabeleceu Jesus como o único mediador entre Deus e os homens.

“Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” Atos 4:12

Ao ler este versículo devemos nos remeter imediatamente para o desafio missionário de anunciar o Evangelho e empreender todos os esforços necessários, especialmente dinheiro e pessoas, para que se cumpra o mandato de pregar a Palavra em todo mundo habitado, para todos os povos.

Mas e os que vão nascer e morrer sem nunca terem ouvido o Evangelho? Infelizmente isso ainda acontece, e aí recorremos ao cenário geral. Pois todos os homens têm a sua disposição alguma revelação sobre Deus. Esta revelação geral de Deus é suficiente para condenar o homem ao inferno. Na carta aos Romanos Paulo explica:

“Portanto, a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. ” Romanos 1:18-21

Esta passagem mostra que “o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles” e “têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis”. Ou seja, através da criação o homem deve, de alguma maneira, compreender o Criador. E não só compreendê-lo, mas reconhece-lo como Criador, glorificar o Seu nome. Nesta passagem Paulo mostra que os homens “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças”.

Em Atos 17, discursando em Atenas para pessoas que nunca tinham ouvido o Evangelho, Paulo diz:

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração.” Atos 17.24-28

Agora Paulo mostra que Deus criou tudo que existe (visível ou invisível aos olhos humanos), e criou o homem com um propósito: “para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar”. Ele mostra como Deus criou toda humanidade para que homens e mulheres O busquem. E vai além falando que Deus “não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração”. Ou melhor, nossa consciência tem algo de Deus, pois fomos gerados por Deus, somos sua descendência. Nossa experiência na terra, que mescla como lidamos com o mundo exterior (coisas criadas visíveis) e nosso mundo interior (consciência humana), deve nos conectar a Deus.

No cenário ideal as pessoas ouvem sobre Jesus e sua obra e decidem se querem segui-lo ou não. São ensinadas nas coisas de Deus, são discipuladas, frequentam uma igreja ou grupo cristão. No cenário geral não existe o anúncio verbal sobre Cristo, mas existe revelação sobre Deus.

Mas não é possível ir para o céu sem Cristo. E o quanto este cenário geral aponta para Cristo não temos como saber exatamente. Em Romanos e Atos nós vemos que Deus não ficou sem testemunho, ainda que não seja verbal, as coisas criadas e a nossa consciência “falam” de Deus para nós. O cenário geral é a provisão do próprio Deus para que Ele não ficasse sem testemunho, e o homem não tivesse nenhuma desculpa do porque não reconheceu e glorificou a Deus. Mas não sabemos qual a capacidade desta revelação geral apontar para Cristo. E sem Cristo é impossível entrar no céu.

Uma pergunta importante: Deus é justo? Ele pode enviar ao inferno alguém que nunca teve oportunidade de ouvir de Cristo? Sim, Deus é justo, sempre foi e sempre será por toda eternidade. Ele estabeleceu Cristo como o único e suficiente Salvador, Senhor e mediador entre Deus e os homens. A justiça de Deus não pode ser questionada. E um dos motivos pelo qual não podemos questioná-Lo é exatamente o cenário geral que Ele mesmo proveu e torna o homem indesculpável (Rm 1.18-20).

A criação revela Deus. A criação dá testemunho de Deus. A experiência de nascer no mundo já é suficiente para conhecer a Deus, compreender a Deus e glorificar a Deus. Em Romanos 1.20 mostra que as coisas invisíveis se tornam claras e compreensíveis por meio das coisas criadas, por meio das coisas visíveis.

Porém tudo isso é o cenário geral. Onde a pessoa terá alguma informação sobre Deus através da criação e de sua própra consciência humana, consciência de existir, viver e crescer na terra. Mas ainda não é o cenário ideal onde ouviu verbalmente de Cristo.

Porém, glorificar a Deus ao observar as coisas criadas é bem diferente de seguir a Cristo, ser discipulado, ter esclarecimento sobre vida, morte e ressurreição de Jesus, escolher seguir a Cristo, participar de uma igreja. O cenário geral, apesar de não ser ideal, revela algo sobre Deus. Quem nunca ouviu de Cristo tem a seu dispor uma revelação feita pelo próprio Deus, Ele quis se revelar pela criação (Romanos 1.19). O grande perigo é confundirmos o cenário ideal com o geral. E achar que o geral pode ser ideal.

A resposta à pergunta que é o título deste estudo deve considerar estes dois cenários, estas duas realidades. O que vai acontecer com aqueles que nunca ouviram o Evangelho? Não sabemos se irão ou não ao céu. O que sabemos é:

  • Não há salvação fora de Cristo
  • Deus nunca fica sem testemunho de si mesmo
  • Deus escolheu os cristãos para dar testemunho verbal d’Ele para todos os povos

E quem nunca vai ouvir de Cristo? O que será destes? Vai depender da maneira que ele responder a revelação geral e não verbal, que se observa na natureza e na própria consciência do homem (Atos 17.28). Mas seja qual for a resposta do homem, ele só será salvo por Cristo. Mas como ele pode saber de Cristo, se ninguém contar. Aí está a pergunta que deve nos mover em missões: Alguém tem que contar! Ainda em Romanos, Paulo ensina e desafia a igreja:

“Porque “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: “Como são belos os pés dos que anunciam boas novas!” Romanos 10:13-15

O Senhor que ele diz que deve invocar para ser salvo é Jesus. Mas Paulo mostra que para invocar o Senhor, precisamos de um cenário ideal, onde existe uma sequência de acontecimentos que começam com o envio do missionário, para que depois pregue e alguém escute, para então poder crer e invocar.

Mas e fora deste cenário ideal. No cenário geral, é possível ser salvo sem nunca ter ouvido do Evangelho? Sim, desde que seja salvo por Cristo. Desde que através da revelação geral e de sua consciência o homem creia e invoque a Cristo como Senhor.

É possível ser salvo fora de Cristo? Não.

Deus é bom, justo e misericordioso. Pois mesmo desejando o cenário ideal, ele deixou um cenário geral para que ninguém tenha desculpa de não ter tido oportunidade de conhecê-Lo. A igreja, o discipulado, o ensino verbal, tudo isso são mandamentos e coisas importantes para compor o cenário ideal. Mas Deus não ficará sem testemunho a seu próprio respeito caso nenhum missionário chegue para anuncia-Lo. Para ir ao céu, temos que estar em Cristo. E para estar em Cristo, temos que responder de maneira adequada a revelação que temos ao nosso dispor, seja a revelação verbal ou não verbal.

Ricardo Silva
Abril de 2015