[Carta Julho-Agosto] Seis meses na Bolívia

Seis meses na Bolívia

“Portando, julgo que não devemos pôr dificuldades aos gentios que estão se convertendo a Deus” Atos 15.19: NVI

Temos usado a internet para comunicar e prestar contas. Isso é um bom sinal. Estamos no campo missionário! Já são seis meses aqui na Bolívia, para nós é um sonho se concretizando. E você que é nosso parceiro faz parte disto, especialmente você que esta conosco desde o tempo do Morrão na Vila Madalena e depois no Seminário Bíblico Palavra da Vida.

Breve reflexão

Atos 13 e 14 relata a primeira viagem missionária de Paulo, e era também a primeiro envio missionário da igreja. Já tinham ocorrido experiências missionárias individuais em Atos 8 e 10, mas como envio da igreja, Paulo é pioneiro em Atos 13. Logo após esta primeira viagem missionária em Atos 13 e 14, temos o primeiro concílio da igreja em Atos 15. A primeira vez que a igreja se reuniu para discutir questões bíblicas e teológicas foi por causa de missões. Eu creio que a igreja e a teologia existem por causa de missões e para missões, e missões existe para glorificar a Deus e cumprir o mandamento primário de Cristo. Tudo deve girar em torno da missão, do ide, esta foi à instrução de Jesus. E eles entenderam isso, a passagem central esta em Atos 15.19: “Portando, julgo que não devemos pôr dificuldades aos gentios que estão se convertendo a Deus” NVI. Esta é um importante recado aos missionários e apoiadores de missões de todo o mundo: facilitem o caminho para que as pessoas se arrependam do pecado e creiam em Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador, simplifique, e não complique a questão da salvação, o conhecimento de Cristo e a vida na igreja.

Em Atos 15 eles refletem na Palavra observando o passado (At 15.5, 13-18). No presente eles passam a ver os gentios de uma maneira diferente, não mais como inimigos impuros, mas como alvos da graça de Deus (At 15.7-12). E para o futuro tiveram estratégias de como continuar expandindo o reino de Deus por todo o mundo dando alguns padrões de comportamento cristão para as pessoas, mas deixando que vivessem sua cultura e costume (At 15.19-33).

O mais importante é que ao final deste primeiro concílio eles não pararam, mas continuaram com as viagens missionárias, anunciando e expandindo o reino de Deus, compromissados com as pessoas das quais tinham falado de Cristo pelo mundo (At 15.36). O concílio foi um ajuste para melhorar a missão. A teologia serviu a questão missionária. Teologia é boa quando nos move a ação e não fica parada nas discussões filosóficas e teóricas.

O que mais me chama atenção neste texto é que eles só mudaram a visão que tinham dos gentios quando saíram das quatro paredes rumo aos outros povos, aos não judeus. Enquanto estavam apenas no seu grupinho judeu, ainda que já existisse a ordem de ir, os gentios continuavam como um povo estranho, imundo, distante. Eles tiveram que se humilhar para cumprir o ide, tiveram que que se misturar com outros povos e sair da zona de conforto, tiveram que se afastar do centro de tudo, da grande cidade. E o mais importante é que mudaram seu pensamento. De certa forma tiveram que “nascer de novo em outra cultura”, pois não bastava ir, mas tinham que estar dispostos a aprender a conviver e respeitar os gentios, tinha que “baixar a guarda” para chegar perto, sentir o cheiro do povo, estar com eles.

Atos 15 é uma mudança de fase na igreja, pois agora iriam pregar com outra ideia na cabeça, é um marco importante para o cristianismo porque o separa de vez do judaísmo. E isso só ocorreu quando a ordem foi cumprida, quando saíram.

Oração no envio de nossa igreja, IEP Sede em SP, em 1 de Janeiro de 2012

Seis meses em Puerto Suarez Bolívia

Nossos primeiros seis meses aqui na Bolívia também encerra uma fase e inicia outra, temos colaborado bastante e Deus tem feito muitas coisas. Se você nos acompanha pelo Facebook vê as fotos e os relatos. Mas existe algo que tem ocorrido com nós que não publicamos na internet e não se percebe em fotos, é uma mudança interna, em nossos corações e em nossa forma de pensar, um amadurecimento. É a consequência de nos misturarmos com o povo aqui, de conhecer, conviver, estar junto, sentir o cheiro de boliviano e o melhor, passar a ter o cheiro de boliviano. Assim, tendo cada vez mais a mente de um boliviano, temos refletido sobre o passado, buscado visão para o presente e estratégias para o futuro aqui em Puerto Suarez. Quero compartilhar alguns destes nossos pensamentos, que também são motivos de oração, e cada um inclui um pouco de reflexão, visão e estratégia:

1) A diferença de trabalho por local, país ou região, é pouca, mas fundamental. Gente é gente em qualquer lugar. A pessoa que não é convertida ao cristianismo é uma alma carente de Deus igual em todo o mundo. São algumas coisas da cultura e do costume que mudam as pessoas, o comportamento está ligado à forma de pensar, suas crenças, sua maneira de ver o mundo. Mas são exatamente estas pequenas mudanças que temos que descobrir para sermos bem sucedidos no evangelismo e discipulado. Fazer missões é fazer amigos, ninguém vai ouvir e dar crédito a mensagem de um estranho, ainda mais um estrangeiro. Esse é nosso maior desafio hoje, ser menos brasileiro e mais boliviano.

2) Nosso tempo aqui não esta ligado a anos, mas sim a projetos. Eu e a Lari temos pensado em três ou cinco anos aqui, só Deus sabe. Não damos muita atenção ao tempo, temos pensado em projetos. E são três projetos, nesta ordem:
• Uma base missionária ativa com algumas frentes de evangelismo como a escola de futebol, um centro para a juventude, pastoral carcerária e projetos sociais;
• Uma igreja, um grupo de pessoas convertidas e batizadas que adoram ao Senhor e formam um corpo eclesiástico, e tem tudo que uma igreja deve ter como louvor, evangelismo (base missionária), aconselhamento, cultos, EBD, grupo de jovens e crianças, atividades nos lares, estudo para casais e etc, esta igreja deve nascer como uma consequência natural das atividades da base missionária;
• Um orfanato, este projeto é a menina dos meus olhos, sonho a cada dia com o orfanato, e às vezes sonho literalmente com isso, uma casa para as crianças que vivem com os pais no presídio e tantas outras crianças que tem suas vidas e infância abandonadas e maltratadas. Aqui na região não existe, em um raio de 300 km, nenhum orfanato ou algo assim.

3) A obra de Deus necessita de pessoas e de dinheiro, nesta ordem. Eu errei ao desprezar totalmente a questão financeira para a obra de Deus, hoje tenho aprendido a dar o devido valor ao dinheiro, pois precisamos dele. É verdade que a obra precisa de gente e o dinheiro vem, mas eu conheço pessoas que estão preparados para vir nos ajudar aqui, mas ainda não conseguiram todo sustento para se manter. Isso tem me levado a escrever projetos para captar recursos que envolvam despesas com pessoas. Claro que todo tipo de ajuda é bem vinda, os que ficam um mês, uma semana, um ano. Mas precisamos de gente preparada para missões, com um mínimo de conhecimento teológico e missionário, com disposição para longo prazo, acima de três anos. Antes eu orava só por obreiros, hoje eu oro por obreiros e recursos financeiros, e além de orar tenho me esforçado para desenvolver bons projetos que atraiam investimento.

4) A ansiedade é pecado e a paciência uma virtude. A ansiedade é pecado ainda que seja para desejar que as vidas se convertam. Eu cheguei aqui muito ansioso e levei um puxão de orelha de Deus pela Palavra. Eu queria ver as vidas convertidas, igreja cheia, tudo acontecendo rápido com as “minhas ideias brilhantes”. Tenho aprendido que não devo ser ansioso, mas empenhado em espalhar a Palavra e deixar que Jesus edifique Sua igreja. É interessante que Jesus diz “edificarei a minha igreja”, ele não diz “nós edificaremos” Mt 16.18. Eu não sei se esta ansiedade é um mal que eu trouxe de conceitos empresariais de metas e resultados. Mas sei que estava me fazendo mal. Eu quero os resultados, mas vou ser paciente para que Deus dê o crescimento. O que Deus começou, Ele vai edificar, da nossa parte não podemos parar o trabalho.

5) Discussão que não gera ação, na maioria das vezes, é vã e vazia. Por isso abaixo um relato dos principais acontecimentos até agora e uma ideia do que queremos para o futuro. Hoje é bem mais fácil eu visualizar o futuro em cima do que já fizemos, as coisas estão andando, acontecendo, mas ainda precisamos de muito trabalho, oração, pessoas e dinheiro para nosso sustento e para os projetos. Abaixo tem um resumo das atividades que temos feito.

Acampamento bíblico de férias, 58 crianças bolivianas e 21 brasileiros que vieram ao impacto de férias

Projetos na Bolívia

Escola de futebol. Com isso reduzimos o tempo ocioso e acessamos mais fácil as famílias. Sábado damos almoço para os garotos. Para o futuro pretendemos ter reforço escolar, acompanhamento nutricional com a multimistura, acompanhamento médico, oficina profissionalizante. Em Julho fizemos o primeiro Acampamento bíblico de férias e foi um sucesso, esperávamos 30 crianças e vieram 58, o trabalho ganhou visibilidade e credibilidade.

Pastoral carcerária 1. Atenção às crianças que ficam presas com os pais. Hoje temos dois grupos, os menores vão à creche de Segunda a Sexta e nós somos responsáveis por transporte, uniforme e material escolar. Os maiores vêm para a base de Quarta a Domingo, três dias tem futebol, um dia um estudo bíblico em pequenos grupos e no Domingo o culto. Para o futuro queremos melhorar a estrutura da Base para oferecer mais atividades e atendimento psicológico as crianças e aos pais no presídio. Queremos muito também levantar o orfanato, mas isso vai precisar de equipe, dinheiro, planejamento e estrutura a parte.

Pastoral carcerária 2. Culto para homens e mulheres todas as Terças, em média participam 20 presos e já batizamos 3 detentos. Agora começamos um discipulado bíblico. Para o futuro queremos levantar liderança cristã local entre os presos e criar alguma atividade profissionalizante e apoio para o momento que saírem do presídio.

Índios Ayoreos. Comecei, de maneira informal, a visitar uma tribo Ayoreo que fica a 10 km daqui, ainda esta bem no início para saber o que vai rolar, eles são muito fechados. Comecei com um culto para toda a tribo e quero ajuda-los com uma horta a pedido deles. Assim podem plantar para comer e vender. Alguns falam espanhol, mas a maioria só o ayore, seu idioma nativo.

A igreja. Estamos plantando uma igreja do zero, um trabalho que gira em torno do mandamento de Jesus e não do culto de Domingo. É um desafio, mas estamos animados. Aos poucos temos pessoas mais compromissadas com Jesus. A ideia é deixar que, a partir das frentes missionárias que estamos atuando, a igreja aconteça naturalmente.

Almoço com jacaré e pacu, comidas típicas do pantanal boliviano 

Pedido especial de oração

Toda a carta acima é um pedido de oração, tanto os projetos como nosso aprendizado e percepção. Mas quero pedir algo especial, pela nossa família. Ore por mim e pela Lari, pelos nossos papéis como ministros, pais, marido e mulher, Que possamos cumprir bem cada um deles e saber tirar tempo de lazer em família sem entrar no ativismo. Ore pela nossa saúde e por nossa segurança. Orem pela Beca e pela Rafa, primeiro orem pela saúde delas, que continuem bem de saúde. Ore pelo relacionamento entre elas, que cresçam em amizade, ore pela maneira como elas têm visto e percebido esta vida missionária na Bolívia. Ore por amiguinhas para a Beca e a Rafa, sentimos falta disto aqui no bairro. Ore pela escola da Beca, ela já esta se alfabetizando, mas as escolas aqui na Bolívia ainda são um pouco mais fracas.

Muito obrigado por tudo, não se esqueça de nós em suas orações.

Contineu acompanhando notícias e novidades atualizadas aqui no blog http://blog.ricardo.org.br

Assista aos vídeos do ministério e dia-a-dia aqui na Bolívia: http://youtube.com/riccoevgt

Abração e até mais…

Ricco, Lari, Beca e Rafa

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